Família, cultura e sociedade frente a surdez
Por Taiane Silva Marques
A família é o núcleo inicial e a base do desenvolvimento da criança. De acordo com Márcia Goldfeld (1997), é a família que dá o significado das coisas e do mundo para a criança quando esta se encontra no início do desenvolvimento linguístico. É partindo desses primeiros significados que a criança vê e participa do mundo em que vive.
A família é o núcleo inicial e a base do desenvolvimento da criança. De acordo com Márcia Goldfeld (1997), é a família que dá o significado das coisas e do mundo para a criança quando esta se encontra no início do desenvolvimento linguístico. É partindo desses primeiros significados que a criança vê e participa do mundo em que vive.
As famílias ouvintes que recebem em seu meio crianças surdas, passam por uma fase muito complicada onde sentimentos como medo, frustração e culpa imperam. Quando o médico apresenta o diagnóstico de surdez, os pais ficam “chocados” diante da novidade e diferença que esta criança trás. As expectativas de cura são muito altas e tomam o tempo e os esforços da família, este assunto está presente em todos os encontros e reuniões familiares, pois é algo novo e todos querem solucionar o ‘problema’ o mais rápido possível. Todo desgaste ocorre, na esperança de que o deficiente auditivo passe a escutar. A escola e a sociedade exercem um papel determinante na medida em que oportunizam que a criança surda seja socializada, dentro da cultura de sua comunidade, com foco primário no seu idioma. Mesmo porque onde há surdos, há Língua de Sinais, este fato foi comprovado durante os anos em que a Língua de Sinais foi marginalizada e que independentemente das proibições ou autoritarismos, os surdos continuavam a praticar sua língua às escondidas.
A relação que se estabelece entre o educando surdo e o educador surdo, estimula não só o aprendizado, mas a construção de uma identidade mais segura. Como resultado, por outro lado, aumenta a aceitação da criança no grupo familiar ouvinte e, através dele, é feito um movimento de mudanças que influem na realidade social e cultural da sociedade. Karin Strobel (2006, p. 250) questiona “como uma criança surda poderá desenvolver uma língua se não houver uma identificação com o surdo adulto? Como o sujeito surdo poderá fazer uma identificação com relação à sua identidade surda no futuro, se ele não conviver com outros surdos que façam uso da língua de sinais?”.
A educação de surdos pode acontecer em diferentes espaços entre eles: a educação realizada na família através de professores particulares e, conforme a lei, sendo validada, posteriormente, através das avaliações do EJA (Programa para Educação de Jovens e Adultos); - a educação realizada em escolas especiais para surdos, através de professores especializados e a construção do conhecimento, sendo feita na língua materna LIBRAS, que foi oficializada em abril de 2002; - a educação realizada em escolas de ouvintes, por professores não especializados, que desconhecem LIBRAS e usam a língua Portuguesa como instrumento de comunicação; - a educação realizada em classes especiais para surdos, dentro de escolas ouvintes; - a educação realizada, através da tutoria de modelos clínicos onde o perfil de paciente se mistura com o do educando. A partir desta perspectiva, podemos ter diversas alternativas pedagógicas. Infelizmente, são raros os professores habilitados para o trabalho nas escolas de surdos, sendo as crianças expostas a uma miscelânea de teorias e práticas pedagógicas apoiadas na falta de fluência lingüística do professor ouvinte, este cenário pouco contribui no esclarecimento de suas dúvidas e da avaliação do seu real conhecimento, conforme Laborit (1994):
Quando um dos professores se virava para escrever no quadro-negro, tínhamos o hábito de trocar informações em língua de sinais, persuadidos de que ele não nos escutava, já que não nos via. Ora no começo, ele se voltava todas as vezes, era estranho, não compreendíamos imediatamente por quê. Com o passar do tempo, dei-me conta de que ao falar com as mãos, sem saber emitíamos ruídos com a boca. Cuidamos então de não mais emitir nenhum som e, desde aquele dia trocamos nossas lições o mais tranqüilamente possível. (LABORIT,1994, p. 84)
Considerando estes diferentes espaços educacionais podemos avaliar a diversidade cultural a que o povo surdo é submetido. Segundo Quadros (1997, p. 26):
Ainda hoje estão sendo desenvolvidos o oralismo e o bimodalismo nas escolas brasileiras; porém, há algo que está aflorando nas comunidades de surdos e isto tem afetado os educadores de surdos. As comunidades surdas estão despertando e percebendo que foram muito prejudicados com as propostas de ensino desenvolvidas até então e estão percebendo a importância e o valor de sua língua, isto é a LIBRAS.
Para entender o termo “povo surdo”, a autora Karin Strobel esclarece (2008, p. 31):
Quando pronunciamos “povo surdo”, estamos nos referindo aos sujeitos surdos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução lingüística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços.
Para alguns cidadãos do povo surdo, as decisões sobre sua educação são tomadas pelos pais, pela escola especializada, com o apoio da comunidade surda local e valorizando a comunicação por LIBRAS, para outros são os pais, a clínica, com o apoio da comunidade ouvinte, valorizando a fala e a audição, através do uso do implante coclear.
Durante muitos anos, os deficientes eram considerados pela sociedade como sendo aberrações da natureza. Estes eram consequentemente associados à imagem do diabo e a atos de feitiçaria por serem diferentes dos restantes membros da sociedade. As perseguições, os julgamentos e até mesmo as mortes foram, na Idade Média, a forma “mais eficaz” de resolver estes problemas.
As pessoas com deficiências auditivas não fugiram à regra, sendo vítimas de muitas destas perseguições, uma vez que eram vistas como pessoas diferentes e, portanto, incompreensíveis aos olhos de quem as rodeava. Porém, a partir do séc. XX, os deficientes passam a ser vistos como cidadãos com direitos e deveres de participação na sociedade,mas sob uma óptica assistencial e criativa. A primeira diretriz política dessa nova visão aparece em 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. “Todo ser humano tem direito à educação.”
A partir de então, vários foram os progressos que se fizeram nesse mesmo sentido, até que nos encontramos, atualmente, perante uma mentalidade muito mais aberta, justa.
GOLDFELD, Márcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. São Paulo, SP: Plexus, 1997.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.Rio de Janeiro: DP & A, 1997.
HONORA, Márcia. Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com surdez. São Paulo: Ciranda Cultural, 2009.
PERLIN, Gladis T. T. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre, Mediação , 2005.
STROBEL, Karin Lílian. História dos Surdos: Representações ‘Mascaradas’ das Identidades Surdas. Estudos Surdos II / Ronice Müller de Quadros e GladisPerlin (Orgs).–