Mascia e Silva Júnior (2003-2006) apresentam um trabalho voltado a inclusão e as relações do ensino-aprendizagem de línguas para surdos, o que há muito tempo foi deixado de lado, esquecido pela sociedade.
Os autores afirmam que é através da diferença, que podemos pensar em línguas, estabelecendo uma relação entre surdos e ouvintes.
Por milhares de anos, os surdos passaram por preconceitos, foram estranhamente reconhecidos por uma gestualização incompreensível aos ouvintes, foram considerados “estúpidos”, incapazes de receber instruções, de desfrutar de um trabalho desafiador. Seus direitos humanos fundamentais foram negados (SACKS, 1990, p. 25 e 27 apud MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006).
Ninguém é igual a ninguém, ninguém é perfeito, e todos sabem disso. Sendo assim, como pode um ser humano ser capaz de julgar o outro, ou mesmo privá-los de seus direitos? É difícil acreditar que mesmo este julgamento sendo tão absurdo, existam pessoas que pensem e agem deste modo.
Mascia e Silva Júnior (2003-2006) apontam que somente a partir do século XVI é que a inclusão do surdo começou a aparecer, visto que a alfabetização formal alcançou as primeiras crianças surdas de famílias nobres, na tentativa de reconhecê-las como pessoas perante a lei, a fim de garantir com isso, a herança de títulos e propriedades dos familiares.
Os autores ainda apontam que a primeira escola de surdos no Brasil surgiu em 1855, com o surdo francês Ernest Huet, que foi contratado por Dom Pedro II para ensinar as crianças da nobreza. Posteriormente, esta escola se tornou o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).
Sacks (1990, p.37 apud MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006) afirma que o final do século XVII e início do século XVIII foi uma espécie de “época áurea” na história dos surdos, pois contaram com sua saída da obscuridade, sua cidadania, uma rápida conquista de posições de eminência e responsabilidade.
Até meados do século XX, os sinais foram proibidos. A sociedade deveria “esquecer” e fazer com que os surdos também “esquecessem” que eram surdos, na tentativa de ensiná-los a falar e a ouvir, sem utilizar de outra linguagem, como a de sinais (MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006).
Ainda para os autores, em 1960, os surdos e profissionais como educadores, historiadores e psicólogos, sentem a necessidade de acabar com a passividade cega, percebendo a necessidade de se fazer algo.
O reconhecimento da língua de sinais como uma língua desestabilizou a ciência lingüística, produzindo diversos questionamentos a respeito da língua e da fala. A língua não se constitui apenas em um código oral-auditivo, se constitui também na tridimensionalidade do espaço, nas mãos. A língua é o corpo que fala. O ouvinte fala uma língua oral, já o surdo fala uma língua espaço-visual (MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006).
Os autores apontam que existem alguns agravantes quanto à inclusão do aluno em sala de aula, como a formação de intérpretes, a adequação de um currículo e parâmetros ouvintizados, a ausência/ineficiência de material didático capaz de atender as especificidades do aluno surdo e o excludente conceito de avaliação. Mesmo com todos os esforços existentes, a falta de profissionais surdos e ouvintes fluentes na Libras e fatores como os já mencionados, tratam da educação do surdo como uma inclusão, sendo a surdez, entendida como uma deficiência.
Para os autores, uma segunda proposta, seria o Bilingüismo, se aproximando mais do “desejo do ideal”.
Skliar (1999 apud MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006) afirma que a “chave” desta perspectiva é o ambiente lingüístico escolar em que o surdo pode adquirir a Libras como a primeira língua e o português como a segunda. A aquisição da Libras pelo surdo sempre será um eficiente caminho para conhecer a língua dominante, o português.
A língua não é um simples instrumento de comunicação, ela é o material fundador de nosso psiquismo e de toda nossa relação com o mundo e com os outros (MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006).
Ainda para os autores, os processos de identificação dos sujeitos, acontecem através da relação com o outro. No âmbito social, Hall (2005 apud MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006) aponta que as identificações se dão pelo imaginário nos espaços culturais e, no âmbito dos processos psíquicos, também consistem em relações imaginadas que estruturam o inconsciente do sujeito enquanto algo pleno, unificado e resolvido: o resultado da fantasia de si mesmo. Tanto ouvintes como surdos, que entraram em um processo de representação simbólica, terão suas identificações aparentemente resolvidas, porém, sempre de ordem contraditória.
Não podemos ser ingênuos ao pensar que o sujeito surdo seja incapaz de criar significados pela língua. O que precisamos, como ouvintes, é nos deslocarmos desse espaço de conforto das línguas orais, nas quais nos subjetivamos e tentarmos nos colocar no desconforto do confronto entre línguas, atentando para as diferenças e especificidades de cada uma (MASCIA; SILVA JÚNIOR, 2003-2006).
Os autores afirmam que os mecanismos de coesão da língua oral, na modalidade escrita, são completamente diferentes dos mecanismos de coesão da língua espaço-visual.
Para finalizar, os autores afirmam que a escrita é a marca do corpo. Um corpo marcado pela surdez. A escrita traz a marca do corpo, é a manifestação de sua singularidade, desse estar entre línguas, tanto oral como espaço-visual. Sendo assim, os processos de identificação, também se dão nesse “entre lugar”.
Baseado nos autores já apresentados no decorrer deste texto e em discussões realizadas em sala de aula pode-se perceber o quão importante é fazer do surdo, parte de uma sociedade na qual está inserido, podendo entender e ser entendido, não deixando de lado seus direitos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HALL, S. Identidade cultural na pós- Modernidade. Rio de Janeiro: DP & A Ed., 2005.
MASCIA, M. A. A.; SILVA JÚNIOR, A. N. Embates de línguas e embates identitários: a constituição identitária do sujeito surdo no entremeio. 2003-2006.
SACKS, O. Vendo vozes – uma jornada pelo mundo dos surdos. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
SKLIAR, C. (org.). Atualidade da Educação Bilíngüe para Surdos. Porto Alegre: Mediação, 1999.
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